quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Dessacralizando corpos.

Vivemos um ideal muito próximo do propagado na Antiguidade. Cultivamos músculos bem trabalhados, esculpidos, aludindo à verdadeiras formas helenísticas.

Na Antiguidade as formas masculinas eram expostas com a finalidade do prazer - erotização - e demonstração de força. Já o corpo feminino se encaixaria numa versão inferior ao corpo masculino - com um pinto beeem reduzido, digamos. Mas ambos eram considerados como extensão do outro, sem distinções claras de gênero - com papéis sociais/políticos/cultural, por exemplo.


Olhando historicamente a forma como o corpo foi desnudado e sexualizado, só tenho a ver a coisa toda com positividade, afinal, se no século XIX cobria-se o corpo com os trapos da moralidade, o despimos agora, mostrando tudo aquilo que escondíamos de nós mesmos: o ser sexual.


O único ponto negativo desse passo gigante e maravilhoso é que os corpos sexuados respondem as normas sociais(no caso, uma posição masculina dominante. e também um padrão estético que, ora, sempre houvera). E numa dinâmica onde a “figura mulher” é dualizada em santa ou puta, acaba se tornando um pouco difícil de entender o que deve e pode se sexualizar.


O status quo não é irreversível, imutável, acredito sim em remodelação, em construção, e persevero a idéia das conquistas. Para tanto, acho fundamental e necessário a dessacralização em torno da “figura mulher”; do gênero.


Nascemos e crescemos em berço cristão(e você não precisa ser cristão para viver uma moral cristã) Vivemos e transpiramos seus valores, e assim caminha a humanidade. O caso é que Maria (aquela mesma, mãe de Jesus) gerou um filho sem antes ter feito sexo na vida, sem antes ter visto um pau deliciosamente ereto na sua frente. Daí que paramos para pensar: Hãm? Mágica? Não, amigos, mitos. Mitos, mitos e mitos. E o que mais conseguiremos encontrar nos mitos que a história humana nos oferece, em torno da imagem feminina, é a mulher vista sob duas perspectivas, ou duas mulheres: a angelical e sacerdotal princesa dos seus sonhos E a sucubus herética, caliente e meretriz da sua cama. A bruxa e a donzela. A esposa e prostituta. A princesa e a plebeia. Agora ficou mais simples de encontrar o erótico? Pois é.


Mas infelizmente, para a grande maioria dos homens(e também mulheres. e meu foco é exatamente esse), o desnudo é o erótico, e essa exposição(os jogos sexuais, as danças) não combina em nada com a "versão esposa"(ou donzela, ou moça de família, mulher de verdade, etc). Um olhar distorcido e altamente prejudicial.


Por outro lado, não cabe a nós apontarmos o dedo - e enfiarmos no meio dos olhos de cada homem que participa desse ideário, embora dê muita vontade!-, pois não foram somente eles que cresceram idealizando esse feminino, mas nós mulheres também, ora! Quando nos formaram "mulher", quando fizeram com que desejássemos o príncipe do cavalo encantado, o lar perfeito, os quartos multi cor-de-rosa, os banheiros coloridos e cheio de flores.


Penso que se nós mulheres entendermos verdadeiramente que cada parte do nosso corpo é totalmente sexual, um passo grande já foi dado. A ressignificação do que é mulher. A transformação e reinterpretação daquilo que era, mas que não precisa ser, porque não é.


Certa vez li uma cara tuitar que “se você não acha mais a sua mulher tão atraente, saiba que outro acha”, porque óbvio, somos objetos também, caramba. E isso não é nada ruim. Assumir a objetificação é saber lidar com o seu lado erótico. E mesmo que ele esteja parcialmente excluído do sujeito, não aniquilará aquilo que você é. Lidar e sentir-se como fazendo parte desse lado objeto é e faz parte da sua relação consigo e com a sua própria sexualidade. E não porque eles homens querem que sejamos, mas porque de fato somos.


Comumente eles mijam, cagam, arrotam e desfilam sem camisas. Brincam e afirmam a sua masculinidade - que se estende ao universo sexual. Brincam de se tocar, fazem lutinhas, reconhecem a carne, o seu corpo, o do outro, o desejo. Na nossa missão, ou aquela que nos foi orientada para “ser mulher”, o corpo não é acessado - ou pouco tocado. Não mexemos no nosso clitóris, não somos - nem de brincadeira! - encaminhadas a praticar a masturbação. Somos chamadas a escondermos as nossa xoxotas e os nossos prazeres, exibindo somente àquele que irá nos possuir, nos penetrar.


Não basta "queimarmos" calcinhas ou sutiãs, é também necessário reconhecer aquilo que existe por debaixo deles.


Imagem retirada daqui.

5 impressões:

Dama de Cinzas disse...

Eu sempre fui revoltada com essas diferenças! É por isso em muitas situações ajo como homem e choco as pessoas. Tomo para mim a liberdade que só é dada a eles. Claro que não vou imitar o lado feio, como arrotar, se coçar e tal... rs... Mas imito a liberdade sexual deles e pago um preço alto por isso... rs

Beijocas

Pimenta disse...

Désir, digo assim que o tiro saiu pela culatra, na liberação feminina.
Expõe-se aquilo que temos, porque sabemos que reverte em lucro, mas sequer sabemos o que deve-se buscar para nós mesmas, mulheres, com isso.
Masturbação feminina ainda é tabu!
As maioria mulheres exercem sua sexualidade em prol dos homens, não delas mesmas.
Muitas vezes nominamos "liberdade sexual"quando na verdade é falta de discrição, e capacidade de deixar a esfera sexual da vida das pessoas lá ao lugar onde ela é exercida,no privado.
Conheço muita gente boa que faz sexo quanto quer, quando quer, e devido a sua discrição, não existe pressão social sobre elas.São realmente livres,e fodem muito,Graças a Deusrsrsrrs.
Ah, mas nem sei mais o que estou te escrevendo, não dá para resumir esse meu pensamento em um comentário, viu.É muito amplo,envolve diversos fatores e pode ser mal interpretado.
bjos,
Ps:De berdade verdadeira, eu gosto muito de ler você.

Trip disse...

Sei lá, tema complexo, e vindo de um homem pode sugerir machismo.

Mas pra mim, a mulher pode ter a sua liberdade sexual sem ser puta. Não acho errado ela transar com quem ela quer, mas acho errado (ou não correto, sei lá que termo usar) quando ela transa com qualquer um.

A diferença pra mim é que essa regra vale tanto pra homem como mulher. Homem puto também se desvaloriza, não só a mulher.

Vanessa disse...

Pi,
Duas coisas que funcionam de maneira interdependentes: capitalismo&sociedade patriarcal. E o mercado inserido nessa lógica machista = comercialização dos corpos femininos. Tb a tachação, a rotulação.
Sobre o não se conhecer...Concordo, claro... Mas como se conhecer em modelos tão desconhecidos e estranhos, né?
(Ah, quando falo de modelos, falo dos modelos que nos são orientados, através da sociedade e da família, e daquele que nos são vendidos, através do mercado, por ex.)

Beijossss
_____

Trip,
O que é uma puta, e o que ela representa pra vc? O que seria um moça direita, e o que ela representa pra vc?

Quem seria o "qualquer um"? (já que a mulher poderia transar com muitos, desde que não esse)

:)

Trip disse...

Tipo, difícil de definir, mas é assim:

A Mulher normalmente pode escolher com quem quer ficar, puta pra mim é aquela que escolhe ficar com qualquer um, sem se preocupar em ver quem é a pessoal.

Aliás, como eu disse, isso não é um conceito só pra mulher, pra mim homem deveria seguir a mesma regra.